Folia do Divino começa peregrinação em Ubatuba

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Neste final de semana, a centenária e histórica Folia do Divino de Ubatuba dá início à peregrinação nas casas do município de Ubatuba. Neste sábado e domingo, dias 2 e 3 de abril, o grupo percorrerá o bairro Sertão da Quina, bairro localizado na região Sul de Ubatuba.

O início da peregrinação no Sertão da Quina acontece a partir das 8 horas da manhã, com saída da capela Nossa Senhora das Graças.

Para saber mais sobre essa manifestação cultural que faz parte das tradições do povo caiçara, leia na íntegra a reportagem feita pelo jornalista Guilherme Carmona, do Jornal O Bravo, que circula em São Luiz do Paraitinga e em Ubatuba. Na matéria, Mário Ricardo de Oliveira (Mário Gato), gerente de patrimônio da FundArt e caiçara pontua características fundamentais dessa festividade.

Folia do Divino: devoção, aprendizado e resistência da cultura caiçara

Neste mês de março se inicia a Folia do Divino, uma peregrinação tradicional que acontece antes da realização da Festa do Divino. Todos os anos, de março até junho, os foliões vão visitando as casas de devotos com suas violas, caixas e rabecas. Trata-se de uma integração importante do povo caiçara, e participam cidadãos de regiões como Almada, Ubatumirim, Promirim, Praia Vermelha e Itaguá. Segundo Mario Gato, historiador da cultura caiçara e rabequista na Folia do Divino, a Folia de Ubatuba é a que resiste entre nossos vizinhos do sul fluminense e Litoral Norte. As festividades, adormecidas durante alguns anos, recomeçaram através de Ney Martins, folclorista de São José dos Campos. Este abraçou a cultura caiçara e propôs aos foliões antigos que se trouxesse a folia à tona novamente.

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Conta-se que no passado a Folia do Divino era bastante popular em Ubatuba, de modo que as comunidades locais de diversos pontos da cidade se preparavam com antecedência para festejar a chegada dos foliões. Segundo Mario, havia duas folias. “Antes, vinha uma folia do Norte e uma do Sul e se encontravam aqui na Matriz na festa do Divino. Eram chamados de tripulantes porque vinham de canoa e barco, porque o acesso era mais fácil que trilha. Eles percorriam do Camburi a Tabatinga. E algumas vezes encontrava com a folia de Paraty na divisa do Camburi”.

Em Ubatuba, estima-se que a festa aconteça há mais de duzentos anos. Em tempos em que o chamado “progresso” atinge as cidades e comunidades locais, padroniza a cultura, globaliza os costumes e enfeita nossos horizontes com rodovias e prédios, é mais necessário que nunca lembrar de nossas raízes e preservar a tradição. Hoje, muitos integrantes dessa importante manifestação já não estão entre nós, mas a Folia do Divino resiste, pois é uma tradição passada de pai para filho. “50 ou 60 anos atrás não tinha interferência nenhuma. Não se ensinava a tocar viola. Eu sou seu avô, toco viola e digo: ‘meu neto, senta aí, isso aqui é um Ré’. Antes isso não existia. Até porque não se sabia nem o que era um ‘Ré’, um ‘Lá’. Isso é de ouvido. A melhor afinação que existe para um instrumento é de ouvido. Esse dom é do caiçara.”

Hoje, mais que uma manifestação cultural, a Folia do Divino é também uma forma de preservação da tradição caiçara. Apesar de alguns integrantes mais antigos permanecerem na peregrinação, é dos jovens que se espera envolvimento para sua continuidade. Mas, diante de elementos externos que têm feito parte da vida das comunidades tradicionais caiçaras, o que se vê é o crescente afastamento e desinteresse dos jovens com as suas raízes. Mario explica que a Festa do Divino, e o próprio povo caiçara, têm uma história católica. Para esta e tantas outras religiões, o corpo, a música e a dança são formas de se aproximar de Deus. Porém, algumas igrejas evangélicas, de popularidade cada vez maior nos últimos anos, consideram a música e a dança da Folia coisas “do diabo”. Isso afasta fiéis que, apesar de fazerem parte de famílias historicamente ligadas à folia, não desejam contrariar a igreja.

Não bastasse a suposta palavra de Deus afastar alguns da Folia do Divino, pode-se dizer que as mãos do Diabo contemporâneo também trabalham à sua maneira, arrastando os jovens para longe de casa: o abuso de drogas, que é a realidade trágica de famílias pelo mundo todo, também tem afetado as comunidades locais. O abuso de substâncias entre os jovens é uma oferta de prazer facilmente acessível, tão mais tentador quanto menores forem as perspectivas pessoais e econômicas de quem as consome. Além de um sinal de alerta para a falta de atenção do Estado e da sociedade em geral com comunidades caiçaras, quilombolas e indígenas, isso demonstra que o consumo de drogas afeta o senso de pertencimento e o interesse dos próprios jovens com as suas raízes.

É triste ver jovens com grandes professores em suas famílias, com muito o que aprender, mas sem o envolvimento com esse aprendizado. Mario conta que uma das formas de buscar esse envolvimento é auxiliar as famílias mais necessitadas. “Hoje o folião tem um salário, ajuda muito famílias que passam por necessidades, é um estímulo. Os pais acham muito importante. Quanto mais os filhos se envolverem com coisa boa, melhor, independente de religião. Melhor se envolver com essa ‘coisa do diabo’, que os pais e os avós tocavam, do que se envolver com droga.”

 

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